sábado, 2 de abril de 2011

VENDO-SE


Passei a vida tendo vergonha.
Passei? Passo! Passarei…
Não me diga que você não sabia
Que a minha alma era de mentira.

Não sei o que é pior
Ficar só ou olhar ao redor.
Os seus olhos de encontro ao meu
Colocam um medo maior que eu.

Então eu percebo que o meu medo
É só a transfiguração
Da minha imagem na sua visão.

Eu não quero ser refletida
Nas visões da vida.
Quero ser uma só
Para poder viver sem nó.

Mas isso não é permitido
Pois contra os olhos doentios eu não tenho feitiço.
E quem me olha quer ver
Aquilo que ele escolher.

Eu não sou o que você vê,
Sou a sua fobia
Que de tanto perturbar
Criou vida.

E é isso que me causa agonia
Ter que conviver com a sua visão doentia.

(Melina Murano)

segunda-feira, 21 de março de 2011

Análise do poema "No jardim em penumbra"

No jardim em penumbra

Na penumbra em que jaz o jardim silencioso
A tarde triste vai morrendo... desfalece...
Sobre a pedra de um banco um vulto doloroso
Vem sentar-se, isolado, e como que se esquece.

Deve ser um secreto, um delicado gozo
Permanecer assim, na hora em que a noite desce,
Anônimo, na paz do jardim silencioso,
Numa imobilidade extática de prece.

Em lugar tão propício à doçura das almas
Ele vem meditar muitas vezes, sozinho,
No mesmo banco, sob a carícia das palmas.

E uma só vez o vi chorar, um choro brando...
Fiquei a ouvir... Caíra a noite, de mansinho...
Uma voz de menina ao longe ia cantando.

Ribeiro Couto

*****

Neste poema o “eu” lírico observa um vulto doloroso quem vem sentar-se isolado e ali permanece como “um delicado gozo” numa atmosfera de entardecer, criando um clima sombrio. Percebe-se logo na primeira estrofe características simbolistas, como a fuga da realidade, em que o vulto simboliza a alma de alguém que já faleceu, verifica-se no trecho “Na penumbra em que jaz o jardim silencioso”, que só foi possível com a quebra das correntes que aprisionavam o corpo e a alma, havendo uma libertação da alma por meio da morte. O local onde esse vulto está é uma pedra, simbolizando um túmulo, percebe-se isso quando o “eu” lírico cita no terceiro verso da primeira estrofe “sobre a pedra de um banco um vulto doloroso”.

Na segunda estrofe o vulto permanece “numa imobilidade estática de prece” como se ele estivesse em uma profunda comunhão e paz, tornando-se anônimo para o restante do mundo, porque ele tenta atingir a sua própria alma, mostrando assim a temática intimista do Simbolismo.

Na terceira estrofe nota-se que o lugar é propício ao descanso das almas, e é aconchegante pelo ambiente de paz buscando sempre um refrigério à alma.

Na quarta estrofe o “eu” lírico viu o vulto chorar uma única vez, pois o lugar é tão propicio a paz que o choro se torna brando, e observando o choro ele não percebe que caíra à noite e de mansinho ele ouve uma voz de menina ao longe, cantando, que o traz novamente a realidade.

Neste soneto percebe-se uma boa parte de características simbolistas, mas observa-se também que sua estrutura foge as regras clássicas do soneto petrarquiano, pois verifica-se uma inovação de sua estrutura típica do Modernismo. O penumbrismo refere-se ao fato de Ribeiro Couto ser um poeta de transição, isso fica evidente pelo próprio título do poema.

terça-feira, 8 de março de 2011

O PESO


Nas minhas costas havia um peso
Era um grande erro
Que de tanto machucar mostra
A verdade por inteiro.
Meus olhos não enxergavam a verdade
De toda minha vaidade.
Mas era o meu enterro
Noite fúnebre no mês de Setembro.
Era o que eu queria
Ser enterrada por melancolia.
A minha face nunca desmostrou
O amor que ele encontrou.
Olhei nos seus olhos e me vi:
Sentada a sorrir.
Ele jamais desconfiaria
Que diante da face angelical
Havia um demônio formal.
Olhei-me no espelho e vi
O grande peso a me ferir.
A minha face se perdeu
Diante do seu mundo e eu.
E agora eu me pergunto:
Quem será eu?

(Melina Murano)

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Análise poética do poema “Eros e Psique”



"Essa análise foi apresentada para o Curso de Letras. Confesso que a professora deu nota 10 para o trabalho que foi feito por mim e minha amiga Cássia".        


    O poema “Eros e Psique” é dividido em 7 estrofes de redondilha maior com rimas misturadas (ABAAB). Ele é encontrado em dois livros de Fernando Pessoa, o Cancioneiro e o Poemas Ocultistas. Foi posto no Cancioneiro por se tratar de um mito da Literatura Grega, e lembrando que um livro recebe o nome de Cancioneiro por conter coletâneas de canções, Eros significa deus do amor e Psique significa alma. E também foi escolhido para ficar no livro Poemas Ocultistas pelo fato de sua principal característica ser o ocultismo, já que o poema vai além das coisas naturais. 
             Outra característica importante na poesia é o Hermetismo, pois para entender o poema é necessário ter um entendimento filosófico e religioso, já que temos o mito, e a citação que nos remete a religião. Existem outras características pessoanas como a angustia existencial, a inquietação perante ao enigma indecifrável do mundo, vagos acenos do inexplicável.
Logo no início temos uma citação que se refere a um trecho da Ordem Templária de Portugal, extinta em 1888, desde então pode-se dizer que ela está em dormência, assim como a princesa do poema. Nessa citação vemos referências ao grau hierárquico, posições que os templários ocupavam conforme seu desenvolvimento na Ordem Templária. O texto abaixo ajuda a compreender essa Ordem.

Os graus também são três: Neófito, Adepto, Mestre, ou melhor, são dez: quatro em Neófito, três em Adepto e três em Mestre. O Neófito é essencialmente um estudioso. No Adepto há o progresso da unificação do conhecimento com a vida. No Mestre há a destruição desta unidade por via de uma unidade mais alta. (Esp. 54 B-17)
Diz ainda Pessoa que escrever poesia é o objetivo da iniciação. O grau de Neófito será a aquisição dos elementos culturais com que o poeta terá de lidar ao escrever poesia; o grau de Adepto será o de escrever simples poesia lírica; o grau e Mestre será o de escrever poesia épica, poesia dramática; e a fusão de toda a poesia, lírica, épica e dramática, em algo de superior que as transcenda (Esp. 54 B-18).                                        
http://www.pessoa.art.br/?p=570

Vemos também uma relação entre as verdades que os cavaleiros recebiam de acordo com a evolução de grau, com as verdades que vamos adquirindo com o passar dos anos, e mesmo que menores e/ou até opostas as verdades atuais, elas são consideradas verdadeiras, pois partiram do mesmo princípio, que é o grau de neófito (posição inicial), ou seja, é a luz saindo da escuridão para encontrar as verdades.
Após a citação do ritual, o eu-lírico parte para a narração do poema e relata a lenda da “Princesa encantada” que está em um sono profundo, e somente um infante que viria de “Além do muro da estrada” poderia despertá-la, sendo assim ele teria que ser corajoso para enfrentar os obstáculos que o percurso lhe oferece. O “muro” pode ser comparado com as dificuldades da vida, e a “estrada” é o caminho que percorremos em busca de nossos objetivos, que no caso do poema é a “Princesa”.
O eu lírico continua, na segunda estrofe, dizendo que o infante, para vencer, teria que lutar contra o bem e o mal para não se perder “antes que já libertado”, “o caminho errado”, ou seja, ele deveria lutar com força e coragem para não se perder no caminho e acabar desistindo do seu propósito que é o caminho que o leva até a princesa. E assim somos nós, em nossas vidas, para não nos esquecermos dos nossos objetivos, devemos continuar lutando.
Na terceira estrofe o eu-lírico relata o estado de dormência em que a princesa se encontrava, “Sonha em morte a sua vida”, e sua cabeça estava ornada com uma grinalda de hera, esta representa a alegria e a jovialidade e é encontrada, geralmente, em túmulos. A princesa dormia tão profundamente que parecia que estava morta, mas não estava, pois ela sonhava em morte com a sua vida, e com o momento que seria libertada desse sono. Sua fronte esquecida pode representar os objetivos que traçamos em nossas vidas e que são esquecidos ao longo do tempo.
Porém, o infante esforçado esta longe da princesa, mas continua lutando como vemos no terceiro verso da quinta estrofe “rompe o caminho fadado”, mas “sem saber que intuito tem”. Percebemos que ele luta e vai atrás de algo, mas nem ele sabe o porquê. Por isso que “ela para ele é ninguém”.
Eles continuam cada um cumprindo o seu destino, “Pelo processo divino/ Que faz nascer a estrada”. O processo divino significa a força maior que rege o mundo e que faz com que as coisas aconteçam. Vencendo todos os obstáculos o Infante chega à Princesa. E meio tonto, ergue a mão e encontra a grinalda de hera e aí ele “vê que ele mesmo era/ A princesa que dormia”. 
Concluímos que quando o infante encontra hera, a grinalda, ele cai em si de quê o que estava procurando era a sua identidade, a sua verdade. Vemos então que o infante pode ser qualquer pessoa que pela estrada da vida busca suas verdades e no final dela encontra sua Princesa, que nada mais é que sua identidade.

 ***

Nota de Massaud sobre Fernando Pessoa: 
Mal decorridos sessenta anos de sua morte (1935), ainda é cedo para aquilatar-lhe a importância, o significado do seu legado estético e cultural e a influência exercida. Podemos, inclusive, estar sob efeito de uma luz tão imensa que o tempo poderá revelar indagadora, cega idolatria. Por outras palavras, talvez estejamos hipnotizados pela esfinge e seus enigmas refletidos numa imensa sala de espelhos 
(MASSAUD, 1968:288).

"Eu confesso que até hoje, passados 2 anos que terminei a faculdade, eu não consigo explicar o Fernando Pessoa. Quando nós entregamos o trabalho e tinha na conclusão essa nota do Massaud a professora, de início, criticou o trabalho, pois jamais em uma conclusão deve ter uma citação, mas depois ela compreendeu que essa citação dizia perfeitamente aquilo que queriamos dizer mas não conseguiamos pois estávamos sob efeito da LUZ que esse poeta reflete em seus espelhos..."


Eros e Psique

… E assim vedes, meu Irmão, que as verdades que vos foram dadas
no Grau de Neófito, e aquelas que vos foram dadas no Grau de
adepto Menor, são, ainda que opostas, a mesma verdade.
Do Ritual do grau de Mestre do Átrio
Na Ordem templária de Portuga
l

Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada.

Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.

A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera,
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.

Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado,
Ele dela é ignorado,
Ela para ele é ninguém.

Mas cada um cumpre o Destino
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.

E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora,

E, inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.





 

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

O Tempo


 


















Ele passa com a força de um furacão
Assassina o meu coração.
Tento entender como ele simplesmente se vai
E me deixa na solidão.
Quero segurá-lo!
Ele escapa por entre os dedos
E todo o momento belo
Se vai sem medo.
Aquele rosto de alegria,
Aquele momento que me alucina,
Aquela paisagem de um dia.
Tudo nos meus olhos são simples ventos.
Que eu não aguento
E choro!
Como criança a querer o meu brinquedo tolo.
Quero segurar o tempo nos meus braços
Abraçá-lo pela eternidade
E jamais deixá-lo partir.
Mas ele diz:
- Adeus senhorita eu tenho que seguir...

(Melina Murano)

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

ENTRE ASPAS



"A mesma verdade que te liberta é a mesma que te aprisiona. E você nem percebe..."

sábado, 20 de novembro de 2010

Jamais escreverei um verso belo...


Jamais escreverei um verso belo...
Eu nasci para empunhar um martelo.
Louca a esfacelar o que já existe?

Mas seja lá o que for eu espero
Que quando o belo verso vier, quero
Que se vá, por já gostar de ser triste.

(Melina Murano)

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Quem sou eu?



 
Aquela que te seduz
Com um olhar que ninguém reproduz.
Sou o mar que te conquista
De uma forma egoísta
Para depois te arrastar
E no fundo te deixar
Só em êxtase profundo.

Depois você irá perceber
Que a sua vida está há desaparecer
E no meu mundo você irá habitar
E se perder até desfalecer.

Sou da água e não tenho medo do fundo.
Gosto do obscuro.
Conheço o perigo.
Conheço você...

O meu canto te encanta.
O meu grande rabo te faz estremecer.
Pois sou sereia!
Sou da terra
Mas vivo no mar para te assustar.

(Melina Murano) 

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

POEMA CORPORATIVO


A vida sentimental
Não cabe ao mundo formal.
Resolvi ser fria
Para ser o que eu nunca seria.

Aprendendo a lidar com a vida
Da personagem falida,
Eu escolhi ser uma montagem caida.

Então, quem será EU?
Aquilo que o mercado escolher!
Personalidade pronta.
Características óbvias.
A minha qualificação profissional
Está dentro de uma obra banal.

Hoje existem livros para a vida.
Enquanto deveria ser vida nos livros.
O que se ensina me enche de agonia e arrepios,
Eu fico quieta e sigo as regras
Como um exercito galopando para o nada
E cai em um abismo.

Me vejo sozinha.
Não há amigas!
Tenho como companhia
O frio que corta
A alma morta.

Ouço ruidos apenas,
Digo palavras ao vento
O único som é o eco da minha voz.

Peço socorro!
Ninguem me escuta.
Minha voz fica rouca
E eu nao me escuto mais.

Ouço zumbidos
Vindos do horizonte.
Enxame de abelhas
Invadem a minha vida
Ferem os meus ouvidos
Picam a minha alma.
E descubro que nao tenho mais alma
Só um corpo que
Perambula frio e vazio
Na escuridão corporativa.

Ass: Melina Murano

domingo, 28 de março de 2010


Sinto-me inútil!
Que de tão inutil fui desfalecendo
Pelo campo fútil da minha vida.
Olho a minha volta
E não vejo nada que me importa.
Vivo como um caramujo
Rastejo pelo chão sujo
E carrego a casca da minha casa
Que não me abriga.
Ando lentamente e subo o muro da vida
Com a esperança de chegar lá um dia.
Esqueço dos importunos
E lembro-me dos oportunos.
Sem perceber que ainda carrego a minha casa de casca.
E ao subir no topo
Reparo que ainda sou caramujo,
Mas a sujeira a chuva levou.
(Melina Murano)